Sinceramente,
"manha" não existe. Pelo menos durante
os 2 primeiros anos de vida. Pelo menos não essa
"manha" que as pessoas usam como álibi
para se isentar de acudir o bebê que permanece chorando,
pau da vida. Me desculpe se, porventura, minha opinião
difere da sua, mas, por amor, vamos pensar juntas...
Convenhamos, um bebê de meses não tem capacidade
de fazer essa tal "manha"! Se ele chora é
porque algo vai mal, e o choro é a única forma
de comunicação que ele tem.
Imagine-se num país estranho, cujo idioma você
não fala uma palavra. Aí você tenta
se comunicar usando um pouco de mímica ou outro artifício
qualquer e... ninguém faz a menor força para
tentar entendê-la. Puxa, isso é indignante!
É o maior egoísmo e falta de solidariedade.
O bebê não sabe falar. O choro é a única
linguagem que ele conhece. Ele só pode apelar para
ela. Cabe aos adultos tentar entender o que se passa e acudir
o pequeno.
Bom, se o neném está chorando, você
faz o "check-list" dos possíveis motivos:
está com fome? Não, mamou há pouco;
está com a fralda molhada ou suja? Não, já
troquei; está com frio ou calor? Não; a roupa
está incomodando? Não, está uma beleza
de confortável; está com cólica? Não,
não é choro de cólica; está
com alguma dor? Não aparentemente;
Aí vem alguém e diz:
Áh, então é "manha"... deixa
chorar pra aprender...
Bom, aí o neném põe a boca no mundo,
berra à beça, se esvai em lágrimas,
e ninguém faz nada... Todos se isentam, pois já
verificaram as razões materiais para o choro e se
certificaram que nada está errado (não está
com fome, não está molhado, não é
cólica...).
Nada errado para eles, pois se o bebê está
chorando é porque tem algo errado com certeza - mesmo
que seja meramente um desconforto passageiro.
Gente, sabe-se lá o que um bebê traz em sua
mente como sensações e sentimentos? Sabe-se
lá que memória ele tem? Você nunca sentiu
medo por estar sozinha? Mesmo um medinho passageiro, que
você resolveu em segundos através de sua capacidade
de raciocínio?
Pois é! Vai ver o bebê está sentindo
um medo parecido. Acontece que um jovem bebê não
tem a menor capacidade de raciocínio, ele é
emoção pura, em estado bruto! Não se
pode exigir de um bebê que ele use sua razão
- isso é uma coisa que vai acontecer aos poucos,
através de muito aprendizado e de muito estímulo.
Esse bebê que está "fazendo manha"
pode estar se sentindo inseguro. Pode estar com medo. Pode
estar tendo uma sensação ruim, de vazio. Pode
estar carente de contato físico - de colo - por alguns
momentos. Sei lá... pode estar tendo um monte de
sensações que não conseguimos imaginar,
e precisa de amparo, de atenção, de segurança,
de colo.
É um absurdo essas pessoas que esgotam as explicações
materiais e concluem, com a maior cara de pau: "é
manha, deixa chorar pra aprender". Gente, isso é
a maior desumanidade! É cruel. O bebê fica
aterrorizado, indignado, frustrado. Ele vai acabar por se
calar sim. Vai cansar e vai calar. Mas até lá,
minha amiga, esse bebê vai ter passado maus momentos!
Vai ter tido uma péssima experiência de desamparo
e rejeição ("que mundo horrível,
ninguém me quer"). Vai ter experimentado uma
frustração grande ("sou incapaz, não
consigo o que quero"). Vai ter acumulado, em todo o
seu corpinho, as tensões deste mau momento (músculos
retesados). Vai ter armazenado em seu cérebrozinho
- tão puro e sem maldade - um stress totalmente desnecessário.
Ele vai guardar esta experiência, pode crer.
Você quer isso pro seu filho? Papai, você quer
isso? Coloque-se no lugar do pequeno? Você gostaria
de passar por isso?
Agora me diga: o que ele aprendeu de bom com isso? Nada!
Ele não precisa aprender as regras da vida desta
maneira, pela via da dor. Ele pode aprender pela via do
entendimento. Talvez dê mais trabalho, mas é
muito melhor para todos.
Se o bebê está fazendo a tal "manha",
ampare-o. Dê colo a ele. Ofereça o seio mesmo
que ele não esteja com fome. Cante baixinho. Faça
carinho. Converse com ele com a voz serena e firme, transmitindo
confiança e amor. Não pense que ele não
entende. Ele entende sim!! Com certeza! Pode não
entender o sentido das palavras, mas seu cérebro
percebe as vibrações de sua voz, e é
assim que a comunicação se dá.
Boto a minha mão no fogo se esse bebê não
se acalmar - mesmo que demore - e não crescer mais
confiante e seguro. Uma criança tratada com humanidade
vai ser muito mais amiga, obediente... vai ser uma criança
mais fácil. Aquela tratada com egoísmo poderá
se revoltar, ou então poderá ser uma "santa"
mas escondendo que neuroses e que infelicidade em sua alma!
Quando o bebê cresce um pouco e já tem uma
certa capacidade de raciocínio, mesmo assim ele não
deve ser "abandonado" aos prantos. Nessa hora,
ele deve ser reconfortado e devem lhe explicar que não
precisa chorar, que está tudo bem, que mamãe
e papais voltam, etc. Pode ser que ele continue chorando
um pouco, mas ele vai se acalmar rápido - ele vai
ter elementos para lidar com a situação, sua
mente terá recursos para se tranqüilizar e ter
confiança.
As pessoas podem apresentar inúmero argumentos. O
mais compreensível é o da mãe cansada,
exausta, que não tem apoio do marido e da família
para lidar com o bebê. Mas mesmo assim eu finco pé...
não se pode recusar atendimento a um bebê assim.
Um bebê é responsabilidade de todos - não
só da mãe!
Em resposta final a todos os argumentos que possam surgir,
eu prefiro seguir a orientação de Jesus Cristo.
Ele disse: "confortai os que choram". Então,
pelo sim pelo não, "manha" ou não
"manha", eu fico com Jesus: acudo a criança.
Depois a gente vê como é que fica.
Uma última palavra às mães zelosas
e amorosas, e aos pais e avós idem: também
não vá se culpar se o neném tiver chorado
um pouco, se você estiver meio sem paciência,
cansada, etc. Isso acontece. Se você, em geral, não
nega atenção ao pequeno, tudo bem. Essa reflexão
toda é mais para aquelas pessoas que ainda não
formaram sua opinião, e para aquelas que acreditam
na tal "manha"...
Autora: Raquel de Andrade Dantas Figueirôa
Texto extraido do site:
http://www.infonet.com.br/meubebe/obebe05.htm