A grande solução: deixe chorar! Passei esses tempos, uma experiência muito forte com a minha filha, Anninha, de 5 anos. Nós fomos viajar para Minas Gerais, e ficamos num hotel. No segundo dia da viagem, umas horas após dormir, Anninha acordou chorando. Dizia ter "uma sensação na garganta", vontade de vomitar, dor de barriga. Ela estava apavorada (detesta vomitar) e fui dar uma volta com ela, pelo hotel. Conhecemos o porteiro da madrugada, uma gracinha por sinal, visitamos o parquinho à meia-noite (uma oportunidade inesquecível), e por fim os funcionários me mostraram uma copa onde preparar um chá de camomila para minha filha. Entre a volta e as conversas, ela foi se acalmando. (Eu sempre primeiro eu acalmo a Anninha, para depois conferir que sintomas "sobram", por assim dizer, e avaliar o real status da situação. Ela é meio dramática nessas horas, se me entendem, chora que vai ficar com dor para sempre, e tals... Acalmar sempre ajuda, de qualquer forma! Até diminui a dor...) Tomou o chá, não vomitou, dormiu de novo. Lá pelas tantas, acorda de novo, desta vez queixando-se somente de dor. Dei o remédio prescrito pelo pediatra dela (antes, não havia dado por causa da queixa de ânsia de vômito), voltou a adormecer. Na manhã seguinte, ao acordarmos, conversei com ela sobre o dia anterior. Nós três (eu, ela e o pai) avaliamos que tinha feito mais do que podia, e combinamos de organizar melhor a rotina dela na viagem. Tomou um bom banho, café da manhã no quarto, depois do almoço descansou no quarto por uma hora, dormiu cedo. A queixa de dor de barriga persistia, fui medicando a cada 8 horas (conforme a orientação médica, como Anninha teve várias alergias alimentares e refluxo, temos já orientação para casos assim), mas ela conseguiu dormir. Manteve a queixa de dor de barriga durante toda a viagem, e uns dois dias após voltarmos, mas continuou dormindo bem. Permanecemos atentos à rotina. Como não se queixasse mais, eu interrompi o remédio, dois dias após estarmos de volta. Nesse dia em que parei o remédio, ela acordou umas 5 da manhã, desesperada, chorando, não falava coisa com coisa (como se estivesse ainda no pesadelo). Eu a acalmei, ela foi para a sala e não dormiu mais. Então, teve uma noite mais curta de sono. No dia seguinte, dormiu às 21 horas. Às 22 horas, acordou com um pesadelo terrível, gritando, foi difícil acalmar. Não dormiu a noite toda. Deitava, encostava os olhos, mas logo abria. Li livros, contei histórias, por fim pus um DVD na sala (último recurso!) e dormi enquanto ela assistia (das 5 às 8 horas da manhã). Ela não dormiu nada. Liguei para o médico dela, ele avaliou que ela provavelmente ainda estaria com cólicas, pela comida e água diferente, mandou fazer dieta leve e manter medicação por mais 5 dias. Disse que cólicas causam pesadelos em crianças pequenas e bebês. Nesse dia em que reintroduzi o remédio (após uma noite curta e outra noite zerada de sono), ela parecia ter medo de dormir, perguntava se ia conseguir dormir ou se o "dinossauro" ia ficar na cabeça dela. Mas apagou, de extremo cansaço. Todavia, das 18:30 até 2 da manhã, ficou me chamando a cada 5 ou 10 minutos (eu estava deitada ao lado dela, na sala, onde ela costuma querer dormir quando tem dor de barriga). Ela ficava rígida, depois chorava (um choro sentido mas curto, um lamento), me chamava e voltava a dormir. Em seguida, tudo de novo. Só pelas duas da manhã, acalmou e ficou dormindo até 8 horas, num sono restaurador. Eu estava quase indo com ela para o PS, de tanto que ela se queixava, mas achei importante deixar ela dormir (porque de qualquer forma não havia um quadro agudo, nem febre, nem vômito, nem diarréia). E se eu fosse ao PS, seria a terceira noite mal dormida. Bom, o tempo foi passando, não consegui retirar o remédio sem que ela se queixasse na data inicialmente prevista, só depois de um mês, praticamente, é que consegui. O médico chegou a pedir exames de fezes, urina, suspeitou de Giardia. Tudo deu negativo. Por fim, entre medicação e dieta leve, ela melhorou...
Lembrei-me então de uma ocasião em que ela comeu camarão (ainda tem essa alergia, ah, ah), e ficou um mês inteirinho com dor de barriga, depois disso. Eu tinha esquecido essa experiência... Acho que foi algo assim, uma comida qualquer que fez mal, e causou um grande alvoroço... Fiquei pensando em como, nas criancinhas pequenas, o mal estar físico e psicológico se associam (só nelas? quem de nós não fica ansioso e com perspectivas terríveis, se tiver um mal estar que não passa?). Não era só dor de barriga que ela sentia. Ela tinha pesadelos, e tinha medo de ter pesadelos. Além de cuidar da parte física (com medicação sintomática e dieta leve), foi importante cuidar muito da rotina dela, nesses dias (dormir cedo, com horário estável, com descanso após o almoço). Também acho que foi muito importante, uma conversa que tivemos, nós duas, quando Anninha teve a coragem de desenhar o dinossauro de seu pesadelo, e inventou um outro final para a história... Lembrei-me muito, durante esse período, de todas as nossas conversas aqui na comunidade. Confirmou-se para mim, como sempre, o quanto o sono é um quebra-cabeças de muitas partes, em que os aspectos emocional e físico se embaralham de uma forma impressionante. Percebi também, mais uma vez, a importância de uma rotina equilibrada. Mesmo na continuidade do mal estar físico, havendo uma rotina adequada, Anninha conseguia lidar muito melhor com a situação... E por fim, fiquei pensando nos bebês e nessa orientação que é dada sobre o sono dos bebês. Deixar chorar.
Imagino o que seria deixar a Anninha chorar. Tento imaginar (com dificuldades, confesso), o que seria Anninha acordar no meio da noite, com mal estar, assustada, sem conseguir entender onde termina a dor de barriga e começa o pesadelo, sem conseguir entender onde termina o pesadelo e começa a realidade... E ser deixada só.
Inimaginável. Cruel. A única palavra que encontro para descrever essa possibilidade é que seria terrivelmente cruel.
E por que... Por que... É considerado lícito fazer isso com bebês pequeninos? Como eu posso afirmar que ele "não tem nada"? Como eu posso ter certeza de que ele não tem cólica, dor, medo, solidão, um sonho ruim (da forma que um bebê possa sonhar)... E posso achar justo ou lícito deixar um bebê chorando, sozinho, no meio da noite?
Mas ninguém proporia isso para uma criancinha de 5 anos. E por quê? Por que a criancinha fala, protesta, se explica. Ela reclama: Estou só! Estou com dor! Acho que vou vomitar! Tive um pesadelo!
Como ficaria a relação entre uma mãe e um filho de uns 5 anos, se ele acordasse assustado ou com dor, durante a noite, e ela não o atendesse? Que sentimentos isso deixaria na criança? Ela provavelmente expressaria isso de alguma forma, contestaria de alguma forma...
Então, vem-me à mente a terrível idéia de que propõem tal prática, junto a bebês, simplesmente porque eles são absolutamente indefesos, e não podem protestar ou contestar quando se faz algo assim.
Essa idéia me parece terrível. Nunca havia pensado desse ponto de vista, mas, após esses dias com Anninha, tenho pensado muito nisso. Não, ninguém proporia "deixar chorar" com alguém capaz de se defender, porque teria que responder à queixa, ao reclame. Teria que dar conta das palavras que seriam ditas.
Mas o bebê não fala. Ele depende única e exclusivamente da sua mãe para interpretar o que ele sente.
Então, a coisa fica cada vez mais terrível e destituída de qualquer coerência, em minha mente. Trata-se de deixar chorar, porque o bebê não pode se defender. Trata-se de fazer calar na mãe, a voz do bebê que seu instinto nomeia e quer atender.
Lembrei-me, a propósito, de um conceito dos psicólogos comportamentais, o conceito de desamparo. O exemplo é simples. Se eu estou em casa, adoeço e passo mal, eu fico assustado e preocupado. Mas eu sei o que fazer: procuro um médico, vou ao Pronto Socorro, sei para onde me dirigir, sei que recursos usar. Eu posso estar aflito e preocupado, mas não estou desamparado. Agora, se eu estou no meio de um terremoto, minha casa caiu, não sei onde está minha família, não sei a quem procurar ajuda... Então, estou pior do que assustado, com dor e preocupado. Estou desamparado, porque não sei o que fazer, e não sei se há o que fazer.
Essa sensação de desamparo é considera terrível pelos comportamentais, é avassaladora para a integridade emocional de um ser humano.
Outro exemplo. Um pintinho, seguro na mão de um homem, tem grande chance de infartar e morrer. Não há nenhuma condição física que justifique isso, mas, segundo os estudos dos psicólogos comportamentais, um pintinho nessas condições entra em desamparo, porque ele não tem recurso nenhum para entender ou mudar o que está acontecendo.
E aí, eu volto para os bebês. E percebo que trata-se da mesma questão: desamparo. Um bebê só vai parar de chorar, à noite, se entrar em desamparo. Ele tem que acreditar profundamente que sua mãe não vai atendê-lo, que nada será feito, que ele não tem o que fazer... Para desistir. E por fim, exausto, voltar a dormir.
Então, trata-se disso... O treinamento para o sono nada mais é do que um treinamento para o desamparo. A mãe deve ser treinada a negar seus instintos mais fundamentais, e deixar de prestar ajuda ao seu bebê (e qualquer mãe pode dizer que basta ouvir o bebê chorar para que seu instinto responda). E o bebê deve ser treinado ao desamparo...
E por quê?
Depois dessa experiência com Anninha, penso que um dos grandes motivos dessa teoria ganhar lugar, é porque, ao contrário da minha filha que tem 5 anos, os bebês não podem falar.
Estão completamente indefesos.
Isso para mim, hoje, é simples crueldade.
Mel (moderadora da comunidade Soluções para noites sem choro, original em http://www.orkut.com/Main#CommMsgs?cmm=1122463&tid=5511546143000604717 )
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